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O Pão
Desde: 13/05/2002      Publicadas: 148      Atualização: 07/07/2004

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 TRANSPLANTE

  03/09/2001
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A espera por um fígado que não chegará

HOEL SETTE JÚNIOR
São Paulo, segunda-feira, 03 de setembro de 2001

A situação dos portadores de doenças hepáticas crônicas e cirrose no Brasil é grave. Essas doenças são a quinta causa de óbitos para os homens na faixa etária de 24 a 64 anos, com a cifra anual assustadora de mais de 44 mil óbitos apenas no Estado de São Paulo.


O país tem de 3 milhões a 8 milhões de infectados apenas pelo vírus da hepatite C, maior causa de indicação de transplante hepático em todas as estatísticas. No final desta década, estima-se que o número de óbitos por doenças hepáticas e cirrose terá aumentado 223%; a necessidade de transplantes terá aumentado 525%, por causa da hepatite C.
No mês passado, houve uma reunião do Conselho Federal de Medicina, em Brasília, com a participação de representantes do Ministério da Saúde e da sociedade civil. Em pauta, os critérios para a alocação de fígados para transplantes. Eu estava entre os que defenderam dar prioridade para os pacientes mais graves. Atualmente, vigora o critério cronológico rígido.
Registrado e não explicado ficou o fato de que o critério cronológico rígido é apenas aplicado aos transplantes de fígado, diferentemente do que ocorre com coração, pulmão e até mesmo rins.
Análise dos números da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo mostra que, de julho de 1997 a janeiro de 2001, dos 595 pacientes que faleceram na lista de espera, 224 (37,6%) faleceram nos três primeiros meses de espera; 115 (19,3%) faleceram do quarto ao sexto mês. No total, 489 pacientes (82,2%) morreram dentro do primeiro ano depois de incluídos na lista. É bom repetir: após o primeiro ano de inclusão na lista, 82% dos pacientes não transplantados morreram. Mais preocupante é que, após 48 meses de implantação da lista por critérios cronológicos, passou-se instituir a "fraude da inscrição precoce", por causa do acúmulo de óbitos.
Essa forma -com critério cronológico rígido- de alocar fígados aos pacientes portadores de doença hepática em fase terminal fere os princípios da ética médica, da justiça distributiva e dos direitos humanos. E, ainda por cima, não encontra similaridade na União Européia e nos EUA. Obediência ao princípio de gravidade é dogma sagrado na arte da medicina.
A sociedade deve tomar conhecimento de que é prerrogativa do médico classificar os pacientes mais graves e prestar socorro em caráter de urgência. Furtar-se a esse dever pode ser interpretado como negligência, incompetência ou omissão de socorro. Nenhum grupo transplantador tem dificuldade de saber quais de seus pacientes estão em piores condições clínicas.


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Obediência ao princípio de gravidade é dogma sagrado na medicina; o critério cronológico fere os direitos humanos
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Aos que defendem o critério cronológico por causa da falta de infra-estrutura, fica a lembrança de que no país existem grupos com excelentes resultados, operando pacientes graves e idosos, com resultados semelhantes aos de centros internacionais.
No Rio Grande do Sul, o Ministério Público do Estado defende que o critério de alocação passe a ser por gravidade, diferentemente de todo o restante do país.
Há muitas maneiras de abordar o grave problema dos portadores de doenças hepáticas crônica e cirrose. Precisamos urgentemente criar um programa nacional, com campanhas de esclarecimentos, com "recall" da população de risco: pacientes que receberam transfusão de sangue antes de 1992, dependentes de drogas, usuários de seringas e agulhas não descartáveis e outros.
Há a necessidade de estender os programas de vacinação contra a hepatite B a toda a população e estender a vacinação contra as hepatites A e B ao menos aos portadores de doenças hepáticas crônicas e cirrose. Precisamos disponibilizar os testes sorológicos e virológicos, em todo território nacional, à população e aos portadores dos vírus B e C. É preciso ainda disponibilizar o Interferon de segunda geração, inicialmente, a 60% dos pacientes não respondedores ao tratamento convencional e aos portadores de cepas do vírus resistentes (genótipos 1, 4 e 5).
O transplante hepático representa apenas uma modalidade de tratamento aos portadores em fase terminal de doenças hepáticas crônicas e cirrose.
Como Oscar Rosé, 58, e outros 595 pacientes da lista única que faleceram sem direito a clemência, centenas e milhares de outros virão a falecer em um futuro próximo. O transplante hepático é a ultima esperança de vida aos pacientes terminais e, por esse motivo, a prioridade da alocação por gravidade deve ser obrigatória. Se a magnitude do problema dos portadores de doenças hepáticas crônicas e cirrose ultrapassa as possibilidades resolutivas do Ministério da Saúde, não é por meio do extermínio dos pacientes mais graves que se resolverá o impasse.




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Hoel Sette Júnior, 59, hepatologista e doutor em gastroenterologia pela USP, com pós-doutorado na Universidade de Londres, é chefe do Grupo de Hepatologia do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e diretor-presidente da Pró-Fígado.


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