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O Pão
Desde: 13/05/2002      Publicadas: 148      Atualização: 07/07/2004

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 TRATAMENTO

  25/05/2004
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MÍDIA, VERDADE E ÉTICA. A hepatite C tem cura?

Observatório da Imprensa - Nº 278 25/5/2004 # ISSN 1519-7670 - A divulgação científica pela imprensa adquire a relevância da verdade e da precisão quando as informações se referem à saúde, que influenciam de maneira direta e decisiva a vida do leitor, ouvinte ou telespectador. por Abdo Gavinho (*).

MÍDIA, VERDADE E ÉTICA
A hepatite C tem cura?

Abdo Gavinho (*)

A divulgação científica pela imprensa adquire a relevância da verdade e da precisão quando as informações se referem à saúde, que influenciam de maneira direta e decisiva a vida do leitor, ouvinte ou telespectador.

Em 14 de maio de 2004 recebemos e-mail do Grupo Otimismo, ONG de apoio a portadores de hepatite C, alertando sobre a chamada "Hepatite C não tem cura" do programa Domingo Espetacular, da TV Record, que seria apresentado no dia 16 de maio, das 18h às 20h, e informando que entrou "em contato com a produção do programa" para alertar sobre "o erro da chamada e provavelmente da abordagem programa".

No dia 17 de maio recebemos outro e-mail do Grupo Otimismo com o assunto "Hepatite C – Reportagem do Domingo Espetacular", informando:

"Após o envio de e-mails e fax e de um telefonema de mais de meia hora com o produtor-executivo do programa Domingo Espetacular, da Rede Record, conseguimos que a emissora atendesse nosso apelo e alterasse o texto do programa ontem exibido".

Foi também divulgado que a colunista Leila Cordeiro comentava o assunto nesse dia em matéria com título "Ética e sensacionalismo", na qual dizia:

"Recebi denúncia do Grupo Otimismo, de apoio aos portadores de hepatite C. Revoltado com a irresponsabilidade da Record, que botou no ar uma chamada do programa Domingo Espetacular informando que a Hepatite C não tem cura, o presidente da entidade lavrou seu protesto: ‘Lamentamos profundamente que uma emissora de TV use de métodos mentirosos, alarmando desnecessariamente a população, simplesmente para obter alguns pontos de audiência. A hepatite C tem cura, sendo que atualmente 56% dos tratados conseguem a cura, inclusive o tratamento é fornecido gratuitamente pelo governo na rede do SUS’."

No dia 18, o Grupo Otimismo divulgou na internet "longa explicação científica de um médico não-identificado, o qual, a pedido do produtor do programa da TV Record, participara de sua elaboração técnica, motivo pelo qual o programa considerou oportuno divulgar que a hepatite C não tem cura" [ver o texto no link www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=5351&id_noticia=116]. O médico afirma: "Na hepatite C mesmo a ‘cura’ na fase aguda é uma suposição ainda. Forte suposição, aliás. Na fase crônica, a ‘cura’ infelizmente ainda não pode ser demonstrada’. E mais adiante: ‘Assim o diagnóstico de cura é sempre discutível, geralmente ‘somente provável’. Cura microbiológica deve significar erradicação do microorganismo. Na hepatite C é apenas uma probabilidade."

É relevante e merece referência que o presidente do Grupo Otimismo é autor de livro intitulado A cura da Hepatite C – Manual do paciente em tratamento.

O direito à verdade

Observa-se que o assunto é científico pela sua natureza.

Enviamos e-mail à Dra. Loreta Burlamaqui da Cunha, coordenadora de assistência da Assessoria de DST/Aids da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, membro da Câmara Técnica de Aids do Conselho Regional de Medicina-RJ e diretora médica da Sociedade Viva Cazuza, e perguntamos se a hepatite C tem cura. Ela respondeu:

"A hepatite C tem controle e tratamento".

Enviamos a mesma pergunta ao Dr. Evaldo Stanislau Affonso de Araújo, médico infectologista da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, coordenador da Área Temática de Hepatites e médico-assistente do Ambulatório de Hepatites do Hospital das Clínicas, da faculdade de Medicina da USP, que respondeu:

"Há ‘Resposta Virológica Sustentada’. Além disso, sempre enfatizo em um dos meus slides usados em aulas que, antes de iniciar a terapia, precisamos explicar ao paciente que a ciência médica é dinâmica, fato que não nos permite ser sempre afirmativos ou categóricos, afinal a evolução do conhecimento pode nos surpreender, algumas vezes negativamente.

Na discussão específica, corroborando a argumentação, lembro ainda que recentemente temos discutido a infecção oculta pelo Vírus da Hepatite B (VHB) em pacientes com perfil de anticorpos compatível com ausência de replicação. O significado exato disso é alvo de discussão crescente. Uma publicação recente demonstra a replicação do VHC em células sanguíneas, algo até então de difícil demonstração, e associa essa replicação com menor taxa de resposta e com recidiva após a terapia. Além desse, pâncreas, adrenal, medula óssea, baço e até SNC são potenciais sítios de replicação extra-hepática do VHC.

Portanto, o termo "cura" é inadequado. O melhor é "Resposta Virológica Sustentada’, que é a indetectabilidade do vírus VHC no sangue 24 semanas após o término da terapia. Sendo que nenhum teste consegue detectar a partir de zero partícula viral, e não há uma pesquisa em locais fora do fígado em situações de rotina.

Esses fatos por si já mostram que não podemos assumir a total erradicação viral, considerando, finalmente, a possibilidade de interferências relacionadas aos métodos diagnósticos biomoleculares empregados. Avançamos muito, sem dúvida, mas o passo desejado – remédios 100% eficazes, pouco tóxicos e com custo acessível – ainda é uma esperança".

O médico se comprometeu a levar ao grupo de consenso da Sociedade Paulista de Infectologia (SPI) essa discussão e aceitou a sugestão para a emissão de um parecer em agosto, durante o 4º Congresso e o 2º Consenso em Hepatite C.

Parece-nos apropriado que a imprensa reflita sobre seu papel no episódio. Houve quebra da ética jornalística? Houve tentativa de influenciar, censurar, alterar matéria jornalística?

Que verdade e ética devem prevalecer para os pacientes de hepatite C, que têm o direito de ser devidamente esclarecidos sobre sua moléstia e as alternativas de tratamento que cabem, para tomar decisões sobre sua vida?

E a hepatite C, tem cura?

(*) Industriário, coordenador do HepC, Grupo de Informação e Apoio em Hepatite C, e webmaster do informativo eletrônico JornalExpress O Fígado (http://www.ofigado.jex.com.br)



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